Eu estava ali, imersa nos tons da terra vermelha, agora saturada pelas infindáveis chuvas de janeiro. A umidade do ar infiltrava as paredes da casa, um sussurro úmido que prenunciava a tempestade. A água, não se contentando com as margens do alizar, começava a transbordar num pequeno espaço da cozinha. Uma angústia me invadiu, uma previsão sombria da piora. Ainda vivíamos um luto pela morte do Rio Doce, transformado em uma sepultura dos rejeitos da indiferença. No córrego, ecoam os gritos sufocados de socorro. Entrelaçados à lama densa e escura, uma melodia sombria de desespero e perda.
O pulmão amazônico aos poucos sucumbe ao enfisema predatório das chamas. No coração salgado, os tons de azul se misturam ao petróleo. Os corais, agora exibem uma palidez mórbida. E o mar, furioso com essa carnificina silenciosa, engole costas, casas, histórias… nos engole. Na morte lenta do cerrado, da mata atlântica, dos manguezais, dos pantanais, parte de mim também fenece com eles. E sob tantas emoções, sinto um calor incessante.
Ouvi sobre memórias do Brasil. Das suas cores vibrantes. E de suas florestas exuberantes. Da diversidade à monotonicidade. Vi um país ser degradado, cimentado, pastado. Ribeirinhos, quilombolas, indígenas, caatingueiros e quebradeiras de coco babaçu. Perdendo terras, tradições e sustentos. Por campos infinitos de soja, cana, e pastos sem fim. Enquanto os tons de cinza expandem, o verde que antes pulsava é consumido
Criança, me abriguei nos versos de Lispector. Senti conforto naquela melancolia profunda. Era sobre – inspira, expira – um mundo falido. E é claro, não compreendiam tamanha tristeza. Ninguém notou, meus sonhos padecem com a Terra.
Mulher latino-americana. Um grito que ecoa no vazio. Na minha garganta, está engasgado. Não consigo digerir. “Não tem dinheiro”, “Não interessa”, “Não tem importância”, “Não é problema meu”. Não consigo respirar. É muita negligência. E esses são os sintomas debilitantes de uma doença crônica.
Espelho desse colapso, a mente também apresenta os sinais do adoecimento. Refém de um ciclo vicioso: depressão, ansiedade e ambição. É neste conto que se pensa; acumulação é a panaceia da dor.
Sei que nada será como antes. Tão grande impotência. Tão grande minha pequenez. Ainda que eu não me cale. Ainda que eu sempre fale. Não sou ouvida. Não estou sozinha, mas me sinto sozinha, o tempo todo. Enfrentando essas tempestades.
Mas, ainda esperançosa. Olho para frente. Para um futuro onde ser mulher e ser Terra não me impeça de viver.
JÚLIA GOUVEIA nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, é especialista em Mudanças Climáticas e Emergências. Sua formação acadêmica inclui bacharelado e mestrado em Relações Internacionais, titulados pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Como pesquisadora, dedica-se aos estudos sobre crise ecológica e desigualdades globais. Além de sua trajetória acadêmica, Júlia é ativista, comprometida com a justiça climática e fim das desigualdades sociais.